sábado, setembro 02, 2006

(...) E ela diz a ele:
Quase nunca estamos como sempre nos encontramos. Quase nunca somos o que antes vivemos. Nos desencontramos à medida que permanecemos. E ao mesmo tempo que te amo, te odeio. Não acredito mais em ti. Não sou mais eu através das tuas palavras, do teu olhar. E, assim, não me resta saída senão dizer que não quero te encontrar. Já não nos deixamos amar como antes. Só crescemos nas possibilidades de ofensa, de aumento do pranto.
Meu amor, não te quero assim. Não me quero ver no fim, mas não te quero assim. Eu te ligo como um fardado marca sua hora de apresentação. Te falo do meu dia por um noticiário a respeito dos fatos, do horário. E se não me atendes, enlouqueço. Me desfaço da calamidade insana que me apeteço. Como me ligas, eu te cobro. Me acalento das justificativas de minhas desconfianças; e te cobro... Te ofendo; me ofendo; te perco; me perco. Já pretendo ser muito mais do que somos, e reconheço que nosso fulgor não paga nossas dívidas mortais. E falecemos de nossos erros fatais. E ligo; e grito; e esperneio pra ver ser meu orgulho te causa mais dos que o esteio. Me desespero; me descontrolo na louca tentativa de te trazer príncipe aos meus braços; de fazer matéria a idéia de ti que insito em carregar nos meus passos.
Se não me atendes eu choro, assim como choras. Lamentamos a morte do que nos movia, do que nos fazia encontrar, do que me fazia te amar. Não te entendo por que te amo. Faço por que quero que me entendas. Não te amo, por que te amo. Faço por que não quero que me prendas. Que me acorrentes na tua ausência. Que me faça te ver com outra. Que me deixes comigo. Apenas comigo. E enlouqueço... Almejando o começo. Enlouqueço por que não aconteço. Por medo de mim, prefiro pagar nosso preço. Nossa dívida no fim.