quinta-feira, agosto 24, 2006


Como nasce o dia.

Ontem tirei o dia pra pensar no que me dei conta anteontem. No que aconteceu anteontem... Quantas pessoas se perdem no vai e vem da vida, e como não nos damos conta. Descobri o segredo do universo. Uma moça cabocla quase me tira fora parte do coração. Sem saber ao certo o que sacudira minha alegria em êxtase, fui saber dela. Por que era especial sendo apenas uma mulher. É... Tenho que confessar que não era apenas uma mulher? A segui no horário do almoço com a fome apenas de sanar a curiosidade que me atordoava. Ela mora na saída da cidade. Caminhava por entre os becos que já não sabia identificar quais - eram de piçarra e barro - até chegar a um cerca aleijada e maltratada. Feita de paus amarrados com arame, parecia ter passado da terceira idade e encostavam-se umas nas outras apoiando os braços no ombro da estaca ao lado. Na entrada da casa adormecia uma pequena ponte para transpor os limites do córrego entristecido de poucas águas. A vi bater a porta. Nem reparei que tinha porta até vê-la bater de costas. Também de paus. Na verdade, a casa toda parecia ter emergido dos dejetos não utilizados dos membros das árvores. Uma casa que parecia não ter cômodos senão a casa. Enfim... Dei-me de coragem e entrei. Quando pus os pés na ponte o chão se moveu. As gramas levantaram-se do sono, puxaram suas pequenas raízes e correram em direção a lateral do quase jardim. Na verdade, se privaram do meu pisar com uma maestria, deixando um caminho para os passos que supostamente seguiriam. Já sem a mesma coragem de antes, continuei. Pensei em bater. Se o fizesse, perderia os vestígios aventureiros que ainda adormeciam em mim. Puxei a porta - abrira para fora - e entrei. Ela estava cantando. Um cômodo, me certifiquei. Nenhuma janela; uma lâmpada incandescente preza à um bocal enforcado em um fio elétrico que saía do teto sem forro. Ela balançava como se a casa quisesse me hipnotizar. Parecia viva. Olhei pela porta do outro lado; dava à uma área aberta. Atravessei claudicante e espiei guarnecido pela parede. Tive a impressão de tê-la vista nua. Depois de algumas piscadas, notei o que fazia. Rodeada de gatos amarelos - exceto um, que era vermelho - mexia um caldeirão tão grande quanto o carro do meu pai. Movia-se como uma fada, e cantava com uma doçura, como se cozinhasse o alimento da vida. Tive vontade de estar lá pra sempre. O sol iluminava, mas não aquecia. E a moça mexia, mexia, mexia. Por um instante parou. Fiquei com e medo que tivesse me notado lá. Ela pegou um dos gatos e mergulhou no caldeirão. Quando tirou ele estava malhado, como estes que vemos na rua. Soltou-o. Quando o pôs no chão, outros quatro saíram de dentro a correr pela casa e se foram. Mexia as mãos como um maestro. E que sinfonia! Vi uma infinidade de armários ao seu redor. Neles, vários potes de azeitonas sem rótulo com um liquido rosado. Um rótulo pela metade dizia ETER. Todos tinham essa escritura. A música pareceu enervar-se de felicidade quando após jogar um pérola na mistura, nasceram dois amores. Uma flor. Única, comprida e avermelhada. Não sei qual era. Com um salto, após a moça ter tirado a planta recém-nascida, sai do parto um cachorro enorme! Quase um cavalo. Mas era cachorro! Só então vi, sua felicidade. Parecia ter retornado à infância a rolar o chão com o animal. Os latidos do bichano e os sorrisos dela saltavam com pingos de luz para todos os lugares. No ar, se transformavam em tudo que existe. Flores, objetos, animais, tudo! Dava vida à vida. Gaia. Com deleites mundanos, experimentava regalias divinas e transformava tudo que tocava em luz, beleza e felicidade. O mundo criou-se, para mim, do sorriso desta moça e da vida de sua flor e seu companheiro de cor marrom, com pêlos espanhóis. Só seu amor era real. Só seu amor era divino e real. Oro por ela, sua força tupiniquim e seus ventos do sul, sempre, de agora em diante.

Que Gaia nos ilumine...