quinta-feira, agosto 31, 2006



O baque latejava. Ainda não se acostumara com os pés novos. Quando pediu um pé de coelho, não imaginava que seu almejado souvenir viria a substituir seu próprio membro. Achou que o lagarto mágico da floresta molhada o teria pregado uma peça. Enfim, seu pé doía. Relutante entre os pés de menino e a pata do animal, topou na pedra que repousava.
Paulo era menino sonhador. Podia não ser qualquer coisa, mas era sonhador. Almejava sempre suas fantasias e guardava bem sua memória. Perambulava pelo parque quase sempre longe dos brinquedos. Nem sabiam por que insistia em aparecer por lá se não brincava. Às vezes brincava, mas não sempre. Mas sempre estava por lá. Às vezes desenhava na areia, às vezes passava horas pulando ininterruptamente. Saltava tão forte tentando alcançar o céu. Quando não, estava sentado; sempre alijado. Ninguém o queria. Alguns o admiravam. Ninguém o queria.
Seu Joaquim espalhou que ele nasceu no mato. Como não sabiam dele, incorporaram. Paulinho Mateiro, era como o chamavam. As crianças aprenderam a esquecê-lo. No parque, o viam apenas como cenário. Mas naquele dia, não. Todos se espantaram de seu pé de coelho. Ele deu seu dia aos pensamentos, consternado pela frustração de seu desejo mal realizado. Tentava, mesmo garoto, acreditar que havia algo divino naquilo. As pessoas não entendiam. Seu Carlos da mercearia disse que era castigo da matinta-pereira. Paulinho passou a tarde lá. Com as mãos apoiadas para trás, estendeu as pernas de menino, como se quisesse exibir ao sol seu pé novo. Enquanto o sol fugia dele, ele remexia suas bolinhas de gude. Ele as tinha desde sempre. Três. Ou melhor, duas. O lagarto pediu uma de suas bolas para realizar seu desejo. Paulinho acreditava em poucas coisas. Uma delas eram suas bolinhas. Carregava-as como única fonte de sua vitalidade, de seus sonhos. As crianças só o aceitavam se as usasse como bolinhas de gude. Não queriam que falasse do quanto eram especiais para ele e dos feitiços que já o tinha feito. Queriam que as usasse para bater e ganhar outras. Só, nada mais. Há um tempo ele tinha desistido de provar a prodigiosidade delas. Guardava uma em cada bolso na esperança de um dia, enfim usá-las com seu propósito sublime.
Quando passou na casa Tia Jacira, quem lhe cedia favores de higiene e alimentação, aquela tarde, ela fingiu não ter percebido seu novo pisante. Colocou em suas mãos sempre limpas, apesar de viver na rua, um pão com um pedaço de ovo. Sua refeição favorita. Ele agradeceu com um sorriso especial, como que aludisse à única felicidade num dia de intempéries. Pela primeira vez se encheu de carinho e passou a mão e sua cabeça. Ela nunca fizera isso antes. Paulinho escondeu-se no descaso, como se não tivesse notado a investida.
Naquela mesma noite, como todas as noites durante 20 anos, Tia Jacira foi ao bingo. Foi, mais uma vez, escondendo sua vontade de ganhar na desculpa por ocupação. Quase desmaia, ao ver sua cartela com apenas um espaço vazio, sem feijão. Nem bem terminou de ouvir o sete, do longo “vinte e sete” que dona Maroca pronunciara, já não via mais nada. Dadas por uma pitada de inveja, suas colegas do vilarejo alvejavam seu rosto com tapas e a sacudiam enquanto se perguntavam se chamariam o Barbosa, seu marido. Ela acordou. Pegou o singelo prêmio, uma televisão – a primeira em cores da vila, e foi pra casa. Enquanto tentava deixar o sono tomar conta de seu corpo, seus pensamentos turbilhavam. Em vinte anos, o que neste dia a fizera ganhar? Não era Nossa Senhora. Nesses vinte anos, todos os dias ela incluíra nas orações o pedido pelo bingo. No que haveria de mais óbvio: Paulinho. Ou mais especificamente: o novo pé de coelho de Paulinho. O único fato incomum que pudera justificar seu ganho.
No outro dia, Tia Jacira já o esperava pela manhã com o pão e o ovo. Sentiu-se estranhamente quisto. Tomou seu café com a mesma concentração de sempre aos olhos sedentos da nobre senhora.
- Onde você o conseguiu?
- O que?
- O pé de coelho?
- No mato.
- Que mato?
- Acolá – apontou na direção da igreja.
Atrás da igreja estava a parte da floresta desconhecida. Mato-frio como chamavam. Para assassinar qualquer ânsia aventureira na senhora.
No mesmo dia, o fato. Ganhara de novo no Bingo. O Barbosa não se continha em felicidade ao saber que poderia usar um telefone a hora que quisesse. Tia Jacira, não continha sua insistência em pensar em Paulinho. Em meio ao falatório, ela irrompe a balbucitância para confessar seu tapasse. “O Paulinho”, disse ela. Deu-se a explicar o que se açucedera e a fizesse ganhar. O Paulinho era um amuleto. Paulinho pé de coelho.
Já pela manhã, não entendia tamanho prestígio. Três, lhe ofereceram o desjejum. Não sabia pôr em palavras sua lealdade à Tia Jacira e não se pôs a explicar muita coisa. Foi andando. Na casa da Tia Jacira, contou o acontecido. Ela deu de ombros. Ele voltou para suas andanças ao redor da vila. Toda ela orbitava em redor da praça a qual resguardava o pequeno parque. Na verdade, o parque resumia-se a um banco de areia onde se depositava um velho balanço para a ocupação vespertina das crianças. Começava, de um lado, na padaria e acabava no limite entre a benção sacralizada da igreja e insalubridade pavorosa da floresta inóspita; ali onde as crianças não entram e os homens só passam com permissão do curupira.
Passou todos os seus minutos desejando ser desejado. Àquele dia, quanto mais era visto mais se sentia olhado. E por mais que o quisesse, sentia-se incomodado. A cada inversão de pés apertava a boca dos bolsos. Fazia de sua velha bermuda um cofre resguardando seu tesouro. Excêntrico demais, aquilo parecia ameaçador. Precisava proteger o que tinha de mágico, o que alimentava seu sonho.
Figura ilustre, usou de sua imponência no trato com o garoto. Um berro: “Paulinho”! Chamou o padre, pedindo que o ajudasse a carregar um dos bancos da igreja à marcenaria. Não explicou, apenas ordenou outorgando a impossibilidade de questionamento, digna de um enviado de Deus. O garoto obedeceu resignado, apesar de não acreditar naquela coisa toda de igreja. Dito e feito. Mais uma vez, enquanto Paulinho dormia, os membros eméritos da quase aldeia comemoravam uma réplica monumental de Nossa Senhora a ser enviada pela paróquia da capital. Mais um feito de sorte. Ou da suposta sorte que causara Paulinho com seu pé de coelho.
Ao longo dos meses, o garoto tornou-se um amuleto da cidade. Todos queriam fazer uso de suas proezas. De certo modo, enfim, Paulinho foi algo maior que a negligência habitual. Estava sempre entre os homens e ocupado com os afazeres alheios. Não reconhecia bem, mas no fundo sentia-se minimamente útil e funcional. Enfim acalentado de sua solidão. Incluía-se nos momentos sociais e deixou de ser parte do cenário para compor os desejos da pequena cidadela.Uma moça grávida, dois empregos na capital, plantações que dão frutos e um cavalo que misteriosamente surge na floresta. Tudo começou a acontecer. Até o espanhol que há um tempo havia se mudado para lá, na volta de sua última viagem consegue, enfim, uma máquina tipográfica que há muito tentava trazer a cidade. A cidade se ocupava e se equipava a passos cavalares às custas do menino.
Antes permanentemente diletante, sonhador e tranqüilo, Paulinho era, desde o pé de coelho, ocupado. Tinha compromissos e não podia se dar o luxo que voltar-se a sentar no banco de areia esperando o sol tocar a floresta. O único vínculo que mantinha com sua fruição lírica anterior eram suas bolinhas de gude, sempre resguardadas. Paulinho as achara na floresta. Caíram em sua cabeça num dia chuvoso. A primeira gota da chuva do ano. As três primeiras lágrimas do choro de Deus. Era sua força. Ele sabia de algo maior por isso. Ele acreditava ser filho do que regia o universo e mantinha sempre consigo isso. A possibilidade de provar-se parte de divina num corpo de homem-menino. Era o símbolo das possibilidades e do amor que trazia latente. As pessoas não o entendiam. Ele era parte do mundo, uma raiz da floresta como um galho qualquer. Tinha em si, a porta para alcançar o maior. E os outros só o viam como menino.
À esta altura, enquanto os outros contavam as novas tentativas, Paulinho sentia-se apenas um menino. Deixara para trás seu valor para caber no convívio. Encaixaram-no num papel e o menino pobre se deixara levar. Aos poucos, até as crianças passam a cumprimentá-lo. Dentre eles, Lúcia, a única filha do espanhol tipográfico, tornou-se a mais próxima. Passou a dividir com ela boa parte dos momentos que lhe sobravam do trabalho comunitário. Há um tempo, além de brincar, conversavam. Falavam de qualquer coisa enquanto contavam as nuvens, ou procuravam acerolas no quintal de dona Josefa. Ela foi a única que chegou a acompanhá-lo floresta adentro à procura de mangas que ele afirmava só ter lá. Ele confiava nela. Já fazia questão de sua presença. Ela parecia sentir do mesmo modo. E o admirava. Sim, tinha-o como ícone de coragem e alguém a depositar suas esperanças.
O garoto, já não se sentia mais menino. E deixara para trás seus sonhos. Com as pessoas, ninguém o tratava com a devida atenção. Ninguém dava ouvidos aos seus questionamentos. “Porquês” infantis respondidos com descaso e impaciência. Quando ouvidos. Chegou a perguntar a Lúcia se seu pai fazia do mesmo modo. Se ela tinha a quem recorrer ao invés de, apesar de menino, ser aquele a quem todos recorrem.
Num dia qualquer, escondeu-se o dia todo na floresta. Não visitou nem Tia Jacira. Não comeu. Passou o dia sentado entre as raízes de uma sumaumeira. Dormiu. Passou a noite. Por entre a copa das árvores, olhava as estrelas no intervalo entre sonolência e vigília. Amanheceu. Continuou lá. Já quase próximo à hora do almoço, ele escuta os galhos movimentarem em sua direção. De longe, reconheceu Lúcia. Ela chegou com um ar preocupado. Olhou-o e perguntou se estava bem. Ele apenas a olhava. Não dizia absolutamente nada. Só lembrava de como era e de como deveria ser. Ela nota seu semblante e pergunta: “O que aconteceu? Porque sua pata está sangrando?”. Dera-se conta de que, no limite entre o humano e o animal, seu membro estava sangrando. Estava tão embebido de suas elucubrações que estava anestesiado e não sentiu a enfermidade.
Ele olhou para ela. Estendeu a mão, pedido a dela. Ela entregou relutante. Ele a colocou em cima da ferida. Olhou-a novamente. Ela estava com medo e desconfortável com o sangue. Ele olha com ar de gratidão e coloca a mão no bolso. Tira seu segredo. Retira sua fonte de vida. E oferece ao apreço da menina. Ela chega a recebê-lo em sua mão branca e delicada. Quando ousou fechar a mão, uma lágrima correu ao longo do seu rosto ao lado esquerdo. Ela coloca a bola de gude parada na barriga do menino. Quando solta o objeto, outra lágrima correu, agora do outro olho direito. Com a mesma mão, ela as enxuga; levanta olhando para o horizonte não mais para o menino; limpa a mão suja de sangue no vestido amarelo de estampa florida; vira-se e vai aos passos de volta à cidade. O menino se mantém parado. Deixa a bola cair no chão em função de sua respiração. Sentia-se pouco merecedor da respiração que mantinha. Na verdade, esteve estático lá, ainda por mais horas. Não era possível computar seus pensamentos, quem dirá medir suas emoções naquele momento. Quanto o sol ameaçara esconder-se, ele, enfim deixou cair uma lágrima. Antes que a escuridão tomasse conta de tudo, levantou-se e correu para o coração da floresta desolado. Entre três árvores, no local onde encontrara suas bolinhas, ajoelhou-se e começou a cavar dado às lágrimas. Jogou a última das bolinhas que restavam. Enquanto tapava o buraco, sentia seu coração arder como uma lança que perfurasse seu tronco. Antes de terminar de cobri-la, caiu deitado de bruços, com o rosto na grama. Sua solidão só diminuía pela companhia da chuva que então viera coroar sua morte. Ficou lá e não levantou mais. Nunca mais. Seu ferimento sangrava e seu corpo definhava. Putrefou-se em cima de sua semente.
Fora esquecido, inclusive pela menina. Só não pela chuva que vinha sempre ao mesmo lugar. Vinha trazer possibilidade de vida para uma árvore. Ela nascera no gérmen do sonho do menino. Crescera e encorpara-se imponente entre as outras três. Ela nunca deu frutos. Apenas residia lá. Para todo o sempre dali em diante.