quarta-feira, outubro 04, 2006

Para celebrar o que há muito não fazia. Prometi que só colocaria textos meus, mas essa não dá!
Sou Fã dele.
Um dia escreverei assim...


INSÔNIA

Fabrício Carpinejar

Quem já não ficou sem dormir por um amor?
Conversando a infância e a morte como dois adolescentes. Procurando memória para imaginar. Medindo os braços com a boca. Não achando a maçaneta dos olhos.
Abraçados como dois pugilistas recuperando o fôlego.
A lutar contra o sono. As pálpebras frágeis como cadeiras de praia. Senta-se ao fundo para não cair.
A porta está ali e não serve. O telefone está ali e não serve. A janela está ali na condição de espelho.
Apaixonar-se é não ter para onde ir porque já se chegou. É não ter como fugir porque já se encontrou. É não ter mais escolha.
O cansaço vai agravando a verdade. Não há mentiras, não há esconderijos, não há roupa para disfarçar a palavra.
Os travesseiros são duas crianças brincando de estátua.
Continua-se a conversa sem compreender. Continua-se para compreender.
Os problemas somem e se redimem. As estrelas param de beber. Os telhados param de fumar. Os insetos apagam as lâmpadas.
Os vícios são perdoados pelo viço.
O rosto expulsa o vidro com cuidado. Como se o acidente daquela madrugada fosse liberar os estilhaços no decorrer dos anos.
Não deveria ser permitido receber tanto. Não deveria ser permitido dar tanto. Inventa-se uma dor para suportar a alegria. O que foi vivido mudará. O que não foi vivido perturbará. Todo adeus será covarde. Não pode ter sido tudo aquilo - não pode ser só aquilo.
Nada apagará a intimidade do homem ser louvado pelos seios, ser preso pelos quadris, represado pelo pescoço.
O cansaço da insônia é maravilhoso. O cansaço da insônia do amor é maravilhoso.
Dorme-se no trabalho depois, dorme-se no ônibus depois, dorme-se sentado depois.
Passar uma noite acordado por uma mulher é ganhar uma vida para dormir em segredo.


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