domingo, maio 20, 2007


“Acho que o dia deveria ter 36 horas”. Confesso que perdi tempo imaginando como deveríamos mudar o eixo da terra para que seu movimento contemplasse o desejo da afirmativa apressada. Chama atenção como a lógica da produção nesse momento histórico ganhou patamares de efeméride, de velocidade. Claro nada a mais do que já disseram Henri Lefebvre, o próprio Marx, em determinado tempo, e David Harvey, Manuel Castells e Milton Santos, mais próximos dos dias de hoje. O modelo pós-fordista, de acumulação flexível, ou de modernidade líquida como preferiria Baumam, impôs a incorporação da estrutura social no nível do indivíduo. Outrora, poderíamos, seguindo Deleuze, conjecturar a cerca da sociedade como uma estrutura disciplinar, dotada e regida por regras de punição e coerção “panoptica” (Foucault), de vigília. Hoje, só nos resta sua alusão à sociedade de controle, na qual a regência dos atos disseminou-se ao nível do indivíduo, incutindo nas cabeças, nos corpos a vontade, a sede, e a ganância por mais.
No filme “infantil” “Os Sem Floresta”, sem muitas pretensões e com um sarcasmo doído de tão pertinente, vê-se exageradamente o colapso de valores a que estamos submetidos. “Aqui vocês comem pra viver, lá eles vivem pra comer...” diz o guaxinim sorrateiro apontando aos que vivem do lado de fora da cerca viva. Os pequenos animais depois de provarem a explosão de gostos que pode ter uma batatinha frita, não conseguem comer mais as raízes que outrora os satisfaziam. Salgados, refrigerantes, pizza, e outros que tornaram-nos embevecidos por um ethos urbanóide volátil e superficial.
De fato a embriaguez que esse contato causou, não foi apenas um surto, mas sim uma ação de cooptação. As ramificações desse modo de vida tornaram-se tão difusas e incontroláveis que agem sobre os próprios desejos dos indivíduos. Há exatos um ano, dei ao meu pai um livro do Richard Sennett de nome A Corrosão do Caráter. Nele o autor contribui para a reflexão analisando a vida do trabalhador em duas gerações. O pai que buscava seguridade em emprego vitalício e o filho que sobrevive na certeza permanente da ameaça de perder tudo.
Como fica claro também no filme, as técnicas de manipulação de matéria para facilitação da vida capitalista, encontra-se num estágio hoje tão absurdo, a que desejemos mais tempo para ter tempo. Hoje, encontra-se qualquer pessoa em qualquer lugar. Visita-se a vida alheia em qualquer momento a que se deseje. Pode-se ter acesso às coisas de maneira tão indiscriminada criando a ilusão da liberdade plena. Sempre me foi confuso esse conceito de liberdade... Pra mim é uma utopia paradoxal. Quem faz o que quer, vive só. Se se vive só, não há porque discutir liberdade...
O que enfim, é latente de observação é a explosão de informação em meios tão amplamente diversos que não se pode enumerar. Estranho que se corre tanto, lê-se tanto, e aprende-se, apreende-se tão pouco. Nas palavras do Milton Santos, há uma explosão de “informação” e uma carência de “comunicação”.
Tirei férias de mim. Tirei férias disso. Dessa vida. Dos emails que não param de chegar; das imagens “novidade” (sem qualquer alusão ao novo); dos telefones que só faltam fazer café e dei-me a contemplação do nada para o esquecimento. Meu dia passou a ter 38 horas. Confesso que em determinados momentos, desejei que voltasse a ter 12 horas, mas nada muito além de um lapso do hábito. “Tudo é tão rápido e as pessoas já não conversam” escrevi certa vez... E meu pai ainda não entende minha relutância em morar em São Paulo. Para ele, lá irei vencer na vida. Que vida? Essa? “Eu que já não quero mais ser um vencedor”.
Que a vida pare; que as pessoas se toquem mais; que os ônibus não corram, que andem.