sábado, janeiro 17, 2009



Diário de Bordo

E o que pode ser mais intenso que a beleza da contradição? Reencontrar-se com os do ninho, com as primeiras portas pro carinho, pro amor. A casa de toda desavença e cerne dos avultosos quiprocós. A casa.

Como um susto que convidam todos de dentro dos seus quartos pra sala, as datas comemorativas nos logram a convivência pela celebração de algo maior, e nos lançamos na missão de reconhecer-se insano no meio dos seus. E vejo que há muito mais em meu pai que seu medo de parecer fraco. Ele alcança um sorriso belo, ainda com seus olhos entreabertos, quase fechados, quando reúne a prole.

Nós, os homens, arrolamo-nos nos descaminhos das PA’s e BR’s na busca de algo mais que a pura e simples chegada. E me vem aos olhos a emoção de adulto, ao ver que há amor nas atitudes discretas e veladas; por detrás do desdenhoso fúnebre cafagestismo que ele assumiu pra si. Homem velho tão machucado, querendo voltar à inocência nas escolhas mais tortuosas. E atrás do arvoro e do medo, tem uma sede de se entregar. E ele se entrega – até o limite permitido – aos filhos. Comungamos de uma parceria momentânea e cênica que reuniu coração numa integração real.

Íamos como adolescentes numa cruzada de desbravamento. Ele, o capitão, eu e meu irmão seus fiéis escudeiros. Alternávamos a vice-presidência do co-piloto, e descobríamos conversas, não muito novas, mas reconhecidamente confortantes. Sem muitos saudosismos e viagens astrais... Somente a factibilidade do momento como o era, direto, companheiro e concreto. Entre as ausências do coração, nos preenchíamos dos risos, das brigas, conversas e silêncios. Não... Nenhum era evoluído em demasia, desde a última vez que nos encontramos, para dar exemplo de conduta. Só estávamos mais vicerais e, sem notar, mais sedentos de parceiros de sangue.

Estivemos, nós, um trio de verdade. Pai e filhos. Ouvimos reggae, pop anos 80, e uns sambas. A proposta era unir as diferentes vertentes, integrar. E nos entregamos. Mesmo eu, tão relutante. Pude perceber mais meu irmão na presença de meu pai. O quanto ele se cala nas nossas conversas, e pude vê-lo lançar-se a ocupar o centro das atenções por mais que cinco minutos. Declarou-se também às traças do desamor a que parecemos estar fadados e voltou a sua inocência com a capacidade afável de arrancar sorrisos de duas pedras. Estes eram momentos em que parecíamos crianças. Na verdade, parecemos crianças, companheiros, navegantes, amigos, adversários, empresários, amantes, padres, e outros que não cabem computar.

Para além do fortalecimento de laços da família branca cristã e altruísta, fomos homens em parceria, nos limites que nos propusemos. Para perceber a vontade de estar junto e que nem tudo é tão escancarado como poderia, mesmo assim ser possível identificar um traço de verdade e carinho profundo.

É... me vendi. Por alguns sorrisos, efêmeros, abri mão da minha verdade por momentos. Mas me banquei. Defendi o que acreditava mesmo que isso nos levasse aos impropérios. Que nos levaram aos silêncios... Mas antes de contabilizar sucessos ou insucessos, fomos nós. Íntegros e reais, em reconhecimento de uma nova etapa. Fomos parceiros e companheiros num vôo dicreto e singelo como há muito faltava.